Por Juliana Farias, estudante de jornalismo da UFES
Na tarde da última segunda, 21, Maurizio Lazzarato, sociólogo e grande companheiro do filósofo italiano Antonio Negri, aceitou me conceder uma entrevista, após a apresentação de Bárbara Szaniecki, que discursava veemente sobre a importância dos cartazes como uma modalidade de imagem no contemporâneo. O cenário da entrevista foi a área livre externa ao Estação Porto. Sentamos e conversamos sobre a nova relação de trabalho, as dificuldades de se incluir as pessoas no processo de produção e não poderia faltar a tão complicada vitória de Nicola Sarkozy, último campeão das eleições presidenciais francesas. Foram 30 minutos em “pleine air”, ao ar livre, de muita compreensão de idiomas. Muito à vontade, ficamos “bavardeando”. Lazzarato demonstrou uma simplicidade em seu modo de agir, tão acessível, nem parecia querer provocar o distanciamento imposto pela maioria dos grandes intelectuais da academia.
Fale sobre a nova relação de trabalho no capitalismo, levando em consideração que nós, após esta relação de imaterialidade, passamos a trabalhar o tempo todo?
Maurizio Lazzarato: A atividade produtiva hoje engloba vários tipos de relações, não somente as de produção como era conhecida antigamente. A produção é perpassada pelas relações sociais, de comunicação e de conhecimento. E são todas estas relações juntas que produzem a riqueza. Por outro lado, existe uma novidade na forma de controle ou hierarquização na relação de produção, que faz produzir um processo de precarização do trabalho. Ao mesmo tempo, a nova relação de trabalho cria dois expoentes: o primeiro é o trabalhador colaborativo, que participa dos lucros da empresa e tem salário fixo, e o segundo é a fragmentação do mercado que provoca desemprego, pobreza e grande diferença social. É linda esta idéia de que o trabalho é a cooperação, o compartilhar do conhecimento. No entanto, existe a pobreza, a super população, a grande diferença social.
Com a produção colaborativa as pessoas terão mais acesso ao conhecimento?
Maurizio Lazzarato: As pessoas com as suas experiências de vida, seus saberes populares já tem acesso ao conhecimento existente. O acesso a este conhecimento pronto pode ser viabilizado pelo oferecimento dos dispositivos e ferramentas de mediação do usuário. Contudo, a única preocupação se torna adequar o conhecimento como um produto a ser consumido. Com a produção colaborativa, este acesso vai aumentar. No entanto, a questão mais importante é pensar como este cidadão vai efetivamente participar desta produção. O que seria necessário para mudar os meios de produção deste conhecimento e não só se preocupar com o consumo/ recepção.
Qual é o papel da comunicação no cenário de capitalismo cognitivo?
Maurizio Lazzarato: É muito importante. A comunicação é responsável pelo controle e produção da subjetividade das pessoas. E a televisão é, sem dúvida, o veículo mais importante nisto, até mesmo que a Internet. É uma grande ferramenta de poder político e controle. Por exemplo, na Itália, o Berlusconi é dono de emissora de tv. Recentemente, ele comprou o formato “endemol”, responsável pelas produções de reality shows como o Big Brother. Além de ganhar dinheiro, ele tem acesso à produção deste conteúdo que é repassado, ou seja, ele se torna produtor de conteúdo também, não apenas transmissor.
Como é possível formar uma cultura comum sem ser uniforme?
Maurizio Lazzarato: O modelo de uniformização é o da televisão. Uma cultura do comum é a que permite a singularidade, multiplicidade, efetiva produção e não só reprodução do conhecimento.
O que representa a vitória dele para o acesso a cultura, depois do episódio de novembro de 2005?
Maurizio Lazzarato: O Sarkozy adota uma política neoliberal. Ele vê a cultura como algo patrimonial. No episódio com os imigrantes, eu penso que maioria da França estava com ele. E a sua postura junto à periferia lhe garantiu muitos pontos favoráveis. Com esta política de afastamento da parte “suja” da qualidade de vida do francês. E isto já deve ter sido pensando com foco na campanha eleitoral. Até porque seu objetivo central é a direita, a identidade nacional e medidas para controlar esta questão da imigração. Sarkozy chamou o pessoal da periferia de “sujos”, que representa uma grande ofensa. E a maioria da França estava de acordo. Ele ganhou com 54%, mas eu penso que mais de 60 % das pessoas concordavam com aquela atitude. Esta luta contra a periferia não passou de uma estratégia, uma maneira de ganhar mais pontos na campanha eleitoral. A França tem medo da periferia, pois eles representam o desconhecido. E Sarkozy soube jogar bem com este medo dos franceses. A crise na França leva muitos franceses a acreditarem nesta política de que tudo é culpa da forte imigração.
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