Reportagem: Stefânia Masotti e Susana Kohler
Edição: Catarina Carneiro e Carlos Augusto
Democratizar a comunicação. Apropriar-se dos meios. Sociabilizar as técnicas. Superar o capitalismo. Esses foram os principais temas levantados na manhã do terceiro dia do Seminário Internacional “A Constituição do Comum: Comunicação e Cultura na Cidade”. Considerado por muitos como o melhor debate até o momento, a mesa foi composta pelo representante da Universidad Nomada, Raul Sanchez, o editor do jornal Le Monde Diplomatique do Brasil, Antonio Martins, o fundador do Centro de Mídia Independente (CMI) no Brasil, Pablo Ortellado, e a professora doutora de Comunicação e secretária municipal de comunicação de Vitória, Ruth Reis.
Sanchez: Internet e Democracia
Raul Sanchez destacou que a Internet é uma democracia efetiva, mas não representativa. Ou seja, ela permite à pessoa escolher o que quer acessar (ler, ouvir, assistir) e se ela quer publicar. Porém é um meio que ainda não consegue alcançar a todos.
O simpático Sanchez relatou ainda sobre o caso do atentado à Espanha, em que a mídia de massa quis colocar a culpa no ETA. A população, ao perceber o equívoco, rapidamente se mobilizou por meios não-massivos (como mensagens de celular e e-mail) para protestar contra o fato.
Martins: Mídias Alternativas
Antonio Martins fez um breve histórico das mídias alternativas, das quais, inclusive, fez parte, e lembrou que enfrentar os oligopólios competindo com as mesmas armas é uma batalha perdida. Para ele, democratizar as técnicas de produção e transmissão da informação é um dos estágios fundamentais para se alcançar a democratização das mídias. Isso significa ensinar a produzir em formatos que dialoguem com outros públicos. A inclusão social ativa também faz parte do processo de democratizar os meios.
Outro ponto destacado pelo jornalista, foi a superação do capitalismo, o que consiste em lutar pela prevalência de valores contra-hegemônicos, como o direito à renda cidadã, que seria o mínimo necessário para garantir o cumprimento dos direitos fundamentais da pessoa.
Ortellado: O CMI
Pablo Ortellado contou a história do CMI, destacando seu caráter independente e horizontal de produzir, organizar e transmitir as notícias. Estas características ficam explícitas com o sistema de produção de notícias do CMI que consiste em quebrar a lógica do furo. Essa lógica tem por objetivo reter uma informação e divulgá-la em único meio. Já os ativistas independentes, ao divulgarem informações relevantes ao maior número de pessoas possíveis e em vários meios, vão de encontro a essa corrente.
O ativista do CMI citou ainda o sucesso do Oh My News, jornal coreano totalmente colaborativo, que hoje conta com versão impressa.
Reis: Democratização da Comunicação
Ruth Reis começou falando sobre a história da luta pela democratização da comunicação, lembrando que este movimento atuava antes do surgimento da Internet. Um dos auges foi durante a ditadura, quando havia inúmeras publicações alternativas protestando contra a censura e a ordem vigente. A partir dos anos 70, segundo a doutora em Comunicação, a preocupação passou a ser o desenvolvimento com políticas públicas nacionais de comunicação. Essas lutas foram baseadas no fato de a comunicação ser um direito fundamental da pessoa, tanto quanto o direito a saúde pública de qualidade, entre outros.
Em um ponto todos concordam: ainda há muito o que fazer para que a democratização da comunicação saia do papel. Uma democracia efetiva só poderá ser alcançada quando todos tiverem livre acesso à informação, além do poder de produção e transmissão.