Reportagem: Paula Varejão, Monique Mansur e Thiago Lourenço
Edição: Regina Trindade e Carlos Augusto
“Muito bacana, muito linda, nem sei o que dizer”. Foram essas as palavras de Edson “Papo Furado”, o homenageado da noite de ontem no documentário Anjo Preto, de Gui Castor.
O lançamento do filme lotou a Estação Porto e arrancou aplausos e risadas durante a sessão. Integrantes da velha guarda estavam presentes e ficaram emocionados ao se verem na telona, onde parte da história e trajetória da Velha Guarda do samba capixaba ali foram eternizadas.
Gui Castor passou um ano e meio acompanhando o cotidiano de Edson. Festas, rodas de samba, boteco, vida familiar, além de depoimentos de amigos sambistas deixam transparecer a humildade e o amor pelo samba. Papo furado, que adquiriu esse apelido devido as várias histórias que conta a todo momento, torna o documentário divertido devido ao seu bom-humor e simplicidade. E dessa convivência claramente nota-se a amizade que se concretizou entre o cineasta Gui castor e Edson Papo Furado. Ao ser perguntado sobre como foi ter o Gui na sua cola durante todo tempo, Papo Furado não hesita em responder: “O Gui não terminou de encher meu saco ainda, vai ter que encher meu saco até o final, porque ele é um garoto maravilhoso”.
Após o documentário houve a apresentação do grupo de samba Sandálias de Pescador, do qual Edson é padrinho. Para ficar ainda melhor, fomos presenteados com a participação especial do cantor e compositor carioca Monarco, da Velha Guarda da Portela, além do próprio Papo Furado, que emocionado subiu ao palco e cantou algumas músicas. O show empolgou a platéia que, entusiasmada, dançou e cantou com sambas tradicionais como “Ai que saudades da Amélia” e “Com que roupa?”. Palestrantes, professores, organizadores, alunos, integrantes da velha guarda. Todos se juntaram numa grande festa. Monarca diz se sentir bastante à vontade em se apresentar em Vitória. “Vitória pra mim é uma segunda casa, aqui eu tenho grandes amigos, canto como se tivesse cantando no terreiro da Portela.”
O diretor
O tema do documentário surgiu quando Gui Castor passou a freqüentar os ensaios da escola de samba Unidos da Piedade. “Comecei a conhecer as pessoas do samba, então veio a idéia de valorizar o trabalho de quem faz samba de verdade aqui no estado.”
O sambista Edson Papo Furado foi escolhido como “fio condutor” da história por ser um artista singular e encarar a vida de um jeito bem-humorado. O diretor conta que se surpreendeu com o entrosamento conquistado com Edson, sua família e todo pessoal do samba. “Eu criei uma família também”.
Gui produziu todo o filme sozinho. Foi diretor, câmera, roteirista e idealizador do projeto. Teve ajuda apenas da produtora do lançamento Andréa Braga, que cuidou da administração executiva do filme. “Na realidade o problema do artista capixaba é que ele não pode ser só artista, tem que ser artista, produtor, executor, diretor e ainda tem que entender de dinheiro e administração. O meu trabalho com o Gui é a idéia que ele possa estar solto para trabalhar a criatividade dele.”
Gui Castor tem apenas 20 anos e cursa o sexto período de Comunicação na Ufes.
O Homenageado
Com sua personalidade simples e humilde, o sambista Edson Papo Furado diz que não vai ficar famoso nunca, já que não tem nada pra isso. “Eu acho que todo mundo que vive nesse ‘mundo cão’ é um artista, é famoso”.
Se perguntar para o Edson quantos anos tem, ele se recusa a dizer e brinca: “Eu sou imorrível!”. E quando sua esposa chega perto, ele faz questão de abraçá-la e dizer: “Essa é a mulher que eu amo”. Seu bom-humor e sua cachacinha nunca o abandonam.
Ele estava muito satisfeito com a homenagem. Ao final do filme, se emocionou ao dar entrevista. “Cada vez que amanhece o dia a vida me dá coisas melhores”. Se diz sem palavras para descrever o que estava sentindo. Mas faz questão de ressaltar: “Eu vou estar sempre sentado aqui na mesa do meu barzinho, tomando algumas coisas, aproveitando o que tem de melhor”. Gosta sempre de fazer referência à sua velha e boa cachacinha, que, inclusive, foi distribuída pra o público ao final do filme, em cabaças estilizadas que levavam o nome do filme e do diretor, confeccionadas especialmente para o evento.
O documentário
O nome “Anjo preto” foi escolhido devido a uma história contada por Papo Furado da sua infância que tem a ver com o racismo. Ele se vestiu de anjo para participar de uma procissão. O padre, numa atitude preconceituosa, disse que não existia anjo preto, e impediu Edson de desfilar.
O documentário se passa no Morro da Fonte Grande. Mostra a vida na favela, as festas, os costumes desse povo apaixonado pelo samba, que tem orgulho de morar onde mora. Várias outras figuras importantes, além de Edson, também aparecem cantando e dão sua opinião sobre Papo e sobre o samba. Fica claro a preocupação deles com o futuro da Velha Guarda, se sentem responsáveis em formar os sambistas de amanhã e temem que o samba vire modismo, assim como aconteceu com o pagode.
Papo Furado conta historinhas interessantes que deixam o filme com ar descontraído. Dentre suas citações estão: “Eu só não bebo acetona pra não tirar o esmalte do dente” , “Cachaça é igual mulher, tem umas boas e outras ruins” , “ Se eu for falar de tudo que eu tenho de bom eu esqueço de mim” , “meu pai me ensinou que falar mal dos outros pela frente é falta de educação” , entre outras coisas.
O Show
A banda Sandálias de Pescador animou a platéia após o documentário. O padrinho do grupo, Edson Papo Furado, gosta de brincar dizendo que “a banda é horrorosa”, de tão boa que é! Para eles foi uma honra o lançamento de sua banda, além de ter a ilustre presença de Monarco da Portela cantando vários sucessos, ser no dia em que seu padrinho é o principal homenageado da noite, o qual consideram uma referência no estado como sambista. “Não existe ninguém que saiba mais de samba e de carnaval do que o Papo Furado”, diz o vocalista da banda Betinho Capoeira.
Sandálias de Pescador tem apenas 2 meses de existência. Nasceu no Festival “Vitória em Canto” realizado em abril na própria Estação Porto, em que a banda ficou em quarto lugar. Betinho conta que este nome foi escolhido devido a uma gíria carioca, em que “chegar na sandalhinha de pescador” significa “chegar humilde, chegar tranquilo, sem alvoroço”.
cara, esse foi o melhor dia!!! Pena q eu nao consegui a cachacinha no final.