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Reportagem: Stefânia Masotti e Susana Kohler
Edição: Catarina Carneiro e Carlos Augusto

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Democratizar a comunicação. Apropriar-se dos meios. Sociabilizar as técnicas. Superar o capitalismo. Esses foram os principais temas levantados na manhã do terceiro dia do Seminário Internacional “A Constituição do Comum: Comunicação e Cultura na Cidade”. Considerado por muitos como o melhor debate até o momento, a mesa foi composta pelo representante da Universidad Nomada, Raul Sanchez, o editor do jornal Le Monde Diplomatique do Brasil, Antonio Martins, o fundador do Centro de Mídia Independente (CMI) no Brasil, Pablo Ortellado, e a professora doutora de Comunicação e secretária municipal de comunicação de Vitória, Ruth Reis.

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Sanchez: Internet e Democracia
Raul Sanchez destacou que a Internet é uma democracia efetiva, mas não representativa. Ou seja, ela permite à pessoa escolher o que quer acessar (ler, ouvir, assistir) e se ela quer publicar. Porém é um meio que ainda não consegue alcançar a todos.
O simpático Sanchez relatou ainda sobre o caso do atentado à Espanha, em que a mídia de massa quis colocar a culpa no ETA. A população, ao perceber o equívoco, rapidamente se mobilizou por meios não-massivos (como mensagens de celular e e-mail) para protestar contra o fato.

Martins: Mídias Alternativas
Antonio Martins fez um breve histórico das mídias alternativas, das quais, inclusive, fez parte, e lembrou que enfrentar os oligopólios competindo com as mesmas armas é uma batalha perdida. Para ele, democratizar as técnicas de produção e transmissão da informação é um dos estágios fundamentais para se alcançar a democratização das mídias. Isso significa ensinar a produzir em formatos que dialoguem com outros públicos. A inclusão social ativa também faz parte do processo de democratizar os meios.

Outro ponto destacado pelo jornalista, foi a superação do capitalismo, o que consiste em lutar pela prevalência de valores contra-hegemônicos, como o direito à renda cidadã, que seria o mínimo necessário para garantir o cumprimento dos direitos fundamentais da pessoa.

Ortellado: O CMI
Pablo Ortellado contou a história do CMI, destacando seu caráter independente e horizontal de produzir, organizar e transmitir as notícias. Estas características ficam explícitas com o sistema de produção de notícias do CMI que consiste em quebrar a lógica do furo. Essa lógica tem por objetivo reter uma informação e divulgá-la em único meio. Já os ativistas independentes, ao divulgarem informações relevantes ao maior número de pessoas possíveis e em vários meios, vão de encontro a essa corrente.

O ativista do CMI citou ainda o sucesso do Oh My News, jornal coreano totalmente colaborativo, que hoje conta com versão impressa.

Reis: Democratização da Comunicação
Ruth Reis começou falando sobre a história da luta pela democratização da comunicação, lembrando que este movimento atuava antes do surgimento da Internet. Um dos auges foi durante a ditadura, quando havia inúmeras publicações alternativas protestando contra a censura e a ordem vigente. A partir dos anos 70, segundo a doutora em Comunicação, a preocupação passou a ser o desenvolvimento com políticas públicas nacionais de comunicação. Essas lutas foram baseadas no fato de a comunicação ser um direito fundamental da pessoa, tanto quanto o direito a saúde pública de qualidade, entre outros.

Em um ponto todos concordam: ainda há muito o que fazer para que a democratização da comunicação saia do papel. Uma democracia efetiva só poderá ser alcançada quando todos tiverem livre acesso à informação, além do poder de produção e transmissão.

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Reportagem: Regina Trindade
Edição: Ludmylla Altoé e Carlos Augusto

Pedro Lu�s e Manguerê

Improviso
Noite de terça-feira. Após uma cansativa tarde no projeto de pesquisa, me dirigi até o Armazém 5 do Porto a fim de encontrar alguns amigos e beber umas cervejinhas. E para conferir, é claro, a programação cultural do segundo dia do seminário “A Constituição do Comum”, que contaria com o lançamento de livros e revistas dos autores Giuseppe Cocco, Bárbara Szaniecki e Maurizio Lazzarato além da apresentação do grupo Manguerê, da Ilha das Caieras. Até aí, tudo certo. Um tímido público esperava o show. Eu, meio distraída em um canto, percebi a presença de uma figurinha conhecida no local. “É o Pedro Luís, do Pedro Luís e a Parede ”, me confirmaram. Fiquei sabendo depois que ele se apresentaria junto com o Manguerê. Informação quase em off. Ninguém sabia da presença dele ali no evento. Nem meu professor Fábio Malini , um dos curadores do seminário.

A aspirante a jornalista aqui se manifestou. Aquilo era algo que poderia ser considerado um furo de reportagem. Fiz uma pauta coma ajuda de um colega, consegui um celular para gravar voz e uma máquina fotográfica emprestados. Fui à procura de Pedro Luís para marcar a entrevista. Ele disse que seria melhor esperar o término do show. Concordei. Agradeci e fui ver a apresentação, digna de aplausos. A participação de Pedro, meio improvisada, foi fantástica. Ele e o Manguerê fizeram a pequena platéia vibrar com a música “Eu quero é botar meu bloco na rua”, do capixaba Sérgio Sampaio . Juliano Gauche, do Solana, também emprestou sua voz à música. Como resultado, a satisfação do público.
Terminado o show, Pedro Luís faz um sinal e começamos a entrevista. A memória do celular emprestado acaba no começo da conversa e o que era para ser uma entrevista técnica virou um bate-papo descontraído. Dessa forma o produto, a meu ver, ficou bem mais satisfatório.

Pedro Lu�s


Vitória e Destino Brasil Música
Pedro Luís foi muito simpático, nem perguntou pela minha credencial ou pelo colete de imprensa, apenas quis saber onde a entrevista seria publicada. Falei então do blog e comecei nossa conversa. Perguntei sobre a presença “secreta” dele no evento e ele me esclareceu que não foi nada inesperado. Na verdade, Vitória faz parte do itinerário do programa “Destino Brasil Música – Um outro som”, que estréia no dia 14 de junho no Canal Brasil, e irá ao ar toda sexta-feira, às 21 horas. Pedro explicou que esse programa visitou doze capitais brasileiras, mostrando duas ou três atrações musicais em cada local. Nossa capital é a décima segunda na programação e o carioca, que tem contato com artistas locais como Zé Maria, Suspeitos na Mira e o próprio Fábio Carvalho, professor e criador do Manguerê, achou bacana fechar o “Destino Brasil Música” no evento. Outras capitais incluídas são Rio de Janeiro, Curitiba, Natal, São Paulo, Belém, Salvador e Aracaju.


Monobloco e Manguerê
Perguntei sobre a afinidade com o Mangeurê e com Fábio Carvalho e Pedro disse que a aproximação se deu por causa da similaridade entre o projeto da Ilha das Caieras e o seu Monobloco, do Rio de Janeiro. “É uma batucada brasileira a favor de uma diversão”, brincou. Apesar da semelhança entre os dois projetos, Pedro ressaltou que a origem do Monobloco é bem distinta do Manguerê. Funcionando há sete anos, o Monobloco surgiu como uma oficina de aperfeiçoamento musical particular, voltada para a classe média carioca. A iniciativa deu certo e a oficina foi aberta ao público, abrangendo inclusive a população menos favorecida. O carioca afirmou que essa abertura acrescentou conteúdo ao grupo. “Você só consegue ensinar, de fato, aprendendo. É através do convívio em diferentes ambientes que você começa a distinguir os diversos ‘códigos’ de cada lugar. Cada pessoa tem uma bagagem significativa que acrescenta no produto final”, disse.


Projetos sociais
Pedro Luís comentou sobre a importância de projetos sociais como o Manguerê que, de certa forma, retira a garotada das ruas de comunidades carentes por um tempo, mostrando a elas outras possibilidades. Mas o carioca destacou que somente projetos culturais não satisfazem. Ele disse que é preciso expandir a visão para além do artístico. “É necessário investir também em outras áreas, habilitar as pessoas para outra coisas, oferecer diversas frentes, desde a informática até, quem sabe, a engenharia civil. O universo brasileiro é muito vasto para se restringir apenas à cultura”, disse em tom descontraído. Neste contexto, Pedro colabora com o projeto Cantagalo – Pavão Pavãozinho , financiado, entre outros, por Jimi Page, ex-guitarrista do Led Zeppelin .
Comentei sobre uma possível próxima visita ao Espírito Santo, mas Pedro Luís disse que ainda não há nada programado. “Ainda não tem nada na agenda, mas espero que tenha em breve”. Fim da entrevista, ou melhor, do bate-papo. Pedro se despede e segue com seus compromissos. Eu continuo na mesa, pensativa. Uma situação inesperada. Pauta improvisada, equipamentos emprestados. Mas para a minha primeira entrevista, creio que o resultado não poderia ter sido melhor.

Pedro Lu�s Pedro Lu�s

Reportagem: Catarina Carneiro
Edição: Ludmylla Altoé e Carlos Augusto

Giuseppe Cocco

O lançamento da nona revista Global e a apresentação do grupo Manguerê marcaram o final das discussões de terça-feira no Seminário Internacional “A Constituição do Comum: Comunicação e Cultura na Cidade” . Além da nova edição da revista, também foram apresentados ao público os livros Estética da Multidão, de Bárbara Szanieck, Glob(Al), de Giuseppe Cocco, e Revoluções do Capitalismo, de Maurizio Lazzarato. Os dois acontecimentos (lançamentos e apresentação) resumiram o tema proposto pelo seminário.

Comunicação

A revista Global representa a comunicação: uma proposta elaborada pela Universidade Nômade, que não é um espaço físico e sim ideológico, constituído por docentes, alunos e grupos populares. Giuseppe Cocco, editor da revista, esclarece sobre o tema:

“A revista Global é uma proposta de discutir a globalização numa perspectiva na qual não é vista como um problema, mas como uma oportunidade, inovando com relação a querer respeitar o mundo constituido pela oposição entre o discursso contra a globalização e o discursso ‘apologético’, diretamente a favor”.

Cocco falou ainda que a revista não trabalha com um público-alvo, permitindo-se de ser lida por qualquer idade, sexo, classe social, grau de instrução e, principalmente, posição a respeito da globalização.

Cultura

O grupo Manguerê cumpre com grande competência a tarefa de representar a Cultura neste seminário. No projeto, os jovens da Ilha das Caieiras, em Vitória, pesquisam os ritmos regionais do Brasil e também as músicas pop até produzirem o próprio som. O manguerê tem ainda um grupo de teatro, uma trupe de circo e agora está implantando o núcleo de memória audio-visual, que trabalhará para resgatar a memória da comunidade. Mas a missão do grupo vai para além das artes: “A nossa missão é promover a inclusão social, a paz e desenvolvimento humano de crianças e jovens da região”, definiu Fábio Carvalho, gestor do Manguerê e presidente do Centro Cultural Caieiras.

Os jovens que participam do projeto concordam: “No projeto aprendi muitas coisas que não sabia e conheci também muitas pessoas”, conta Sunchine de Souza, de 20 anos, a participante que está a menos tempo no Manguerê – seis meses- e pretende fazer a faculdade de música. Seu colega, Rômulo Ramalhete, 30 anos, é o que está a mais tempo no grupo, três anos. O secretário, tesoureiro, produtor e fundador do Manguerê resumiu em uma plavra o que o grupo representa para ele: “Respeito”. E justifica:

“Na minha comunidade, se você não estiver na área de culura, vai ser sempre tratado com bandido”.

Participações especiais

Para incrementar ainda mais o batuque do Manguerê, subiu ao palco o cantor Pedro Luiz e em seguida o capixaba Juliano Gauche. Muito oportunamente, os cantores e o grupo homenagearam o cachoeirense Sérgio Sampaio e levantaram o público com o refrão batucado “eu quero é botar meu bloco na rua”.

Como uma aula foi este segundo dia de seminário: as teorias discutidas nas palestras e em seguida praticadas nos lançamentos e no show.

Sobre os autores dos livros:

Palestrantes O Comum

Mais sobre a revista Global:

Blog revista Global

Ministério da Cultura

Pedro Lu�s e ManguerêPedro Lu�sManguerê

Por Juliana Farias, estudante de jornalismo da UFES

Na tarde da última segunda, 21, Maurizio Lazzarato, sociólogo e grande companheiro do filósofo italiano Antonio Negri, aceitou me conceder uma entrevista, após a apresentação de Bárbara Szaniecki, que discursava veemente sobre a importância dos cartazes como uma modalidade de imagem no contemporâneo. O cenário da entrevista foi a área livre externa ao Estação Porto. Sentamos e conversamos sobre a nova relação de trabalho, as dificuldades de se incluir as pessoas no processo de produção e não poderia faltar a tão complicada vitória de Nicola Sarkozy, último campeão das eleições presidenciais francesas. Foram 30 minutos em “pleine air”, ao ar livre, de muita compreensão de idiomas. Muito à vontade, ficamos “bavardeando”. Lazzarato demonstrou uma simplicidade em seu modo de agir, tão acessível, nem parecia querer provocar o distanciamento imposto pela maioria dos grandes intelectuais da academia.
Fale sobre a nova relação de trabalho no capitalismo, levando em consideração que nós, após esta relação de imaterialidade, passamos a trabalhar o tempo todo?
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Blog de Guerrilha

No ritmo da discussão do evento, em que a cultura blogueira confunde-se com a cultura do espalhe, o Blog de Guerrilha cita o seminário como uma forma de guerrilha, no qual serão discutidas novas formas de opinião pública e de consumo.

Reportagem: Daniel Vieira e Ronni Garcia
Edição: Ludmylla Altoé e Carlos Augusto

A palestrante Kátia Jourdano apresentou a missão das incubadoras culturais citando o modelo empregado na PUC-Rio. Ela demonstrou que as incubadoras atuam como um processo de gestão de idéias e empreendimentos que visa possibilitar a auto-sustentação dos negócios incubados. A indústria da cultura representa 7% do PIB mundial e possui um potencial de crescimento de até 10%.

Na Incubadora Cultural da PUC/RJ, o processo de incubação conta com cinco profissionais, que selecionam as idéias mais viáveis. A isso eles denominam pré-incubação. A partir da idéia concebida os participantes devem gerar um modelo de negócio para que o projeto seja incubado. A partir daí esses gestores dão total assistência a este. Visto que o grande problema dos produtores de cultura não é a produção técnica e sim a gestão do negócio.

Para atingir esses objetivos, as incubadoras prestam serviços de consultoria (jurídica, contábil, administrativa, entre outras). A iniciativa da universidade católica tem obtido bons resultados com a incubação de 18 empreendimentos, que já geraram 100 postos de trabalho direto. Um bom exemplo é o projeto Nós do Cinema, incubado na PUC e que foi apadrinhado pela Petrobras.
Trama Virtual:
Um exemplo de gestão de negócio em rede

A idéia surgiu a partir do grande volume de produções musicais que a gravadora Trama recebia por conta dos artistas não ter condições de realizar o trabalho de divulgação pelos meios tradicionais de comunicação.

O palestrante Dagoberto Donato trouxe para o seminário o exemplo bem sucedido da Trama Virtual. Hoje, a gravadora tem seu trabalho muito mais focado na internet do que na tradicional indústria fonográfica. De acordo com Dagoberto, a produção em rede desvinculou os conceitos de produção musical e fonográfica.

Reportagem: Daniel Vieirae Ronni Garcia
Edição: Ludmylla Altoé e Carlos Augusto

O segundo dia de palestras do Seminário Internacional “A constituição do comum” contou com as presenças de Paulo Lima do RITS (Redes de Informação do Terceiro Setor), Oona Castro da FGV-Direito/RIO e do Coletivo Intervozes, Kátia Jourdano da Incubadora Cultural da Puc-RJ e Dagoberto Donato, do Trama Virtual. A questão da Sustentabilidade e Gestão de Projetos Culturais e de Comunicação foi tratada de forma linear pelos participantes proporcionando ao público um bom entendimento sobre o assunto.

Paulo introduziu o assunto citando a crise de sustentabilidade dos meios alternativos de comunicação, visto que até mesmo os meios tradicionais enfrentam o mesmo problema. O grande desafio da mídia alternativa é gerir um modelo que trabalha com a informação independente da idéia de mercadoria. Desde 1988 que alguns grupos alternativos trabalham com o conceito de rede. A divulgação do assassinato de Chico Mendes foi um marco do sistema de comunicação em rede, pois graças a esse sistema, foi conseguida uma grande repercussão internacional que pressionou a mídia nacional.

Segundo ele, é preciso encontrar novas formas de gestão que não se proponham ao enfrentamento do maximídia, onde apenas um grupo detém o poder de produzir conteúdo, mas que procurem um espaço próprio de articulação em rede e que se utilizem também de uma forma de comunicação participativa, diferente do modelo de maximídia.

É necessário procurar o apoio público, porém, este, não tem condições de dar conta da imensa produção cultural que emerge das redes, então é necessário buscar mais caminhos para fomentar projetos de comunicação alternativos.

Para Paulo Lima, durante muito tempo se viu a internet como uma rede de leitores, o que sugere algo parecido com o modelo tradicional de produção de informação, quando na verdade ela é uma rede de cidadãos em potencial. O tema “conteúdo”, e as formas de produzi-lo, são fundamentais para a discussão do futuro da comunicação digital.

Open Business

Seguindo essa linha de pensamento, Oona Castro mostrou o resultado de uma pesquisa realizada pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-Direito/RIO  sobre Open Business demonstrando casos de sucesso como o tecnobrega no Pará e a produção cinematográfica nigeriana que chega a produzir mais de mil filmes por ano.
Existe uma crise da indústria cultural tradicional devido à concentração da produção e da distribuição. Para Oona, a apropriação pela periferia das tecnologias de informação aliado a crise de produção tradicional gerou uma indústria criativa em oposição à indústria cultural, que durante muitos anos foi um termo pejorativo. E surge uma competição interessante a partir das possibilidades abertas pelas redes colaborativas que produzem conhecimento a baixíssimo custo e não possuem limites nas fronteiras do espaço. Esse tipo de rede elimina a necessidade de intermediários que não contribuem no processo de produção de conteúdo.

Ela ressaltou que começa a existir uma flexibilização do conceito de propriedade intelectual e isso é a base do Open Business. O marco legal de propriedade intelectual de hoje está ainda embasado nas estruturas do século XX, isso deixa tênue a fronteira entre legal x ilegal e formal x informal na cultura e produção colaborativa.
Surgem redes de conhecimento e produção de cultura com licenças “Creative Commons” onde o conteúdo pode ser utilizado sem fins lucrativos e entre outras condições de uso.

Tecnobrega

Seguindo a linha de Open Business, o tecnobrega é um fenômeno que foi estudado. É um estilo musical que emerge da periferia de Belém do Pará que movimenta mais de 2,5 milhões de reais por ano. Formado por grupos independentes que se utilizam somente de meios de produção caseiros e tem como colaboradores, inclusive, os “camelôs”, para a divulgação do trabalho. Isso porque esse modelo de negócios não enxerga na propriedade intelectual uma fonte de renda, ao contrário, vê na “pirataria” uma forma de disseminação de seu produto cultural.

Logo, as fontes de renda dos produtores de tecnobrega vêm quase exclusivamente dos shows e eventos que eles participam. Esse é um tipo de cultura de massa não massificadora e também não pode ser caracterizada como cultura de resistência e sim um canal de produção e consumo de bens culturais diferenciados.

A palestra seguiu com as falas de Kátia Jourdano, da PUC-Rio.

Reportagem: Luiz Paulo, Luiz Eduardo e Geize Miranda
Edição: Ludmylla Altoé e Carlos Augusto

público de terça pela manhã

No segundo dia do Seminário Internacional “A Constituição do Comum: Comunicação e Cultura na Cidade” o tema debatido pela manhã foi trabalho e renda.

Aproximadamente 400 pessoas participaram da palestra “Democracia, Liberdade e Renda no Capitalismo Contemporâneo”, que contou com a participação de Andrea Fumagalli, da Universidade de Pavia na Itália, Denise Dau, secretária nacional de organização da CUT e o professor Giuseppe Cocco, da Universidade Nômade.

Para Andrea Fumagalli, que é participante da rede Universidade Nômade e pesquisador das problemáticas do trabalho precário e da renda universal, a renda básica é extremamente relevante para o capitalismo de hoje. A seguir seguem os principais trechos da palestra de Fumagalli:

“Segundo Nilton Friedman, da escola moderna do liberalismo, o termo “renda básica” é definido da seguinte forma: existe uma substituição apenas para os indivíduos que não ganham um mínimo para sobrevivência, que ganham pouco ou estão desempregados. Nesses casos, o Estado interviria dando dinheiro através de mecanismos fiscais, os impostos. Ou seja, um Estado liberal sem intervenção nos projetos sociais”.

“A luta pelo direito do trabalho é um conceito Fordista, que consistia na renda básica para todos os indivíduos, renda condicionada pela necessidade de formação e pela vontade do sujeito de entrar no mercado de trabalho.”

“Segundo o Direito Primário, a partilha da renda deve ser incondicional. Essa estrutura não pode ser aceita pelo capitalismo cognitivo, por se tratar de uma remuneração de um trabalho que já foi feita, mas não foi distribuída socialmente.”

“Já o modelo de cooperação social, o capitalismo cognitivo, se deve ao conhecimento pessoal, que não pode ser considerado mercadoria pública do Estado. Conhecimento pessoal pode ser considerado social e deve ser valorizado pelo capitalismo.”

“Outro ponto necessário para o desenvolvimento do capitalismo cognitivo é a intervenção do Estado durante um determinado período para servir de incentivo aos indivíduos pobres a buscarem uma forma de sustento. Isto é, a distribuição das riquezas entre os protagonistas da produção social. Para isso, se faz necessária a definição dos níveis de pobreza relativos.”

A militância da CUT

Denise Dau, secretária nacional de organização da CUT, deu foco à palestra no salário mínimo e renda universal, questionando como construir um novo sistema de leis do trabalho sem prejudicar o modelo social, em que defende um salário mínimo necessário ao orçamento familiar e promoção da distribuição de renda daqueles que possuem uma fortuna maior que 2,5 milhões. Denise pôs pontos em voga que são discutidos pela CUT, visando uma reforma trabalhista, os quais podem ser destacados: a definição de conceito de salário mínimo necessário; a fixação de um prazo para sua aplicação; a desoneração tributária de artigos fundamentais; imposto de 1,5% cobrado sobre grandes fortunas; combate à terceirização; entre outras.

Fazendo um histórico do trabalho no Brasil, Denise relata que a partir dos anos 1990 a terceirização toma lugar do trabalho formal, causando instabilidade trabalhista; e a ascenção de governos neo-liberais e a globalização veloz e sem critério aumentaram o desemprego, causando o aumento da terceirização e do trabalho informal. Diante disso a palestrante questiona como representar o trabalhador excluído (informal), mas que produz renda. Incluí-lo, “é a consolidação do comum no mundo do trabalho, é alcançar o patamar de cidadania plena”, concluiu Denise.

Trabalho relacionado ao comum

O professor Giuseppe Cocco preferiu enfatizar o tema do evento, fazendo uma relação com as políticas públicas. Para ele, a condição da produção da riqueza é a remuneração do trabalho – o não reconhecimento do trabalho sugere a política social negativa.

Alfinetando a fala de Denise Dau sobre o aumento do salário mínimo, Cocco diz ser preciso reduzir o déficit da previdência. Aumentar o salário desde que não aumente o déficit. “Não há anotação suficiente dos recursos nos relatórios da previdência, os valores do PIB não são corretamente contabilizados”.

Finalizando, Cocco diz ser necessário haver uma flexibilização das leis trabalhistas. Após a fala de Giuseppe Cocco foi aberto espaço para debate e perguntas do público.

público

Reportagem: Juliana Tinoco e Regina Trindade
Edição: Carlos Augusto

Mesa da tarde de segunda

A mesa da segunda rodada de palestras contou com a presença de Barbara Szaniecki (PUC-Rio e Universidade Nômade), Ivana Bentes (ECO-UFRJ e Universidade Nômade) e Luiz Paulo Correa e Castro (Nós do Morro, RJ).

Barbara Szaniecki deu abertura à discussão fazendo uma alusão ao Leviatã de Thomas Hobbes , monstro soberano que puniria os homens por não cumprirem o contrato social estabelecido para a manutenção da ordem. Barbara diz, baseada em Antonio Negri, que na contemporaneidade houve uma ruptura no conceito do Leviatã, e nas cidades impera a desobediência. Ela afirma que a “monstruosa exploração capitalista” leva à “monstruosa resistência da multidão”, expressa na intervenção urbana por meio de cartazes, pichações, ocupações de prédios e manifestações. Segundo Barbara, o cartaz assume na rua sua vulgar reprodutibilidade e, através dos movimentos das pessoas, eles ganham mobilidade. Esses movimentos podem ser caracterizados pelos “homens e mulheres cartaz”.

Ivana Bentes, a segunda palestrante, deu continuidade à idéia de “monstro”, citando o aumento da visibilidade da produção cultural vinda das favelas, veiculada tanto nas grandes mídias quanto fora delas. Afirmou que existe uma produção cultural lateral que influencia toda a sociedade. Essa produção lateral pode ser entendida como uma “esquizofrenia bipolar”, na qual os produtores da cultura são os mesmos personagens criminalizados. Segundo Bentes, não é mais possível separar os produtos dos produtores, ambos circulam continuamente.

Ela discutiu, ainda em relação à esquizofrenia bipolar, sobre a questão da “pobreza positivada e normatizada” versus a idéia de marginalidade atribuída, quase que simultaneamente, às favelas e periferias. Ivana exemplificou essa situação com a figura do negro no jornalismo e nas demais expressões culturais. De acordo com ela, no jornalismo, o negro e seu ambiente é mostrado com o estigma do medo, do risco, da fatalidade; algo quase monstruoso. Por outro lado, mostra como a moda, citando apenas um dos exemplos, simboliza o negro como o “produtor de estilo”. “O negro belo vende”, diz. Ela situa o Brasil como o lugar onde a pobreza é pano de fundo para nossa originalidade, na qual os pobres são figurantes de um “super espetáculo global”.

A palestrante também discorreu sobre a estética funk e o pós-feminismo, destacando a revolução do comportamento sexual feita pela periferia que chega e perturba a classe média. Ivana diz que os movimentos culturais são “embriões de políticas públicas”, pois têm sucesso onde o Estado fracassou. “Nenhum discurso estético é neutro; todos eles são a materialização e expressão de discursos diversos”, diz Bentes.

O terceiro palestrante , Luiz Paulo Correa e Castro, falou sobre suas experiências no projeto “Nós no Morro” existente no Morro do Vidgal no Rio de Janeiro. O “Nós no Morro” foi idealizado por Guty Fraga depois de um contato com o teatro independente de Nova YorkeIorque. Guty sentiu a necessidade de montar um projeto que desse infra-estrutura aos talentos existentes dentro da comunidade do Vidgal. Assim surgiu o “O Nós no Morro”, baseado primeiramente no teatro.Hoje ele conta com cursos de formação em cinema e é patrocinado pela Petrobrás. Luiz Paulo, um dos idealizadores do projeto juntamente com Guty, falou sobre a importância dele para as pessoas da comunidade. “Algumas mães até choram quando seus filhos não conseguem entrar nos cursos de formação”. Luiz Paulo disse que esse ano foram inscritos mais de 850 pessoas, de 7 a 70 anos, para as 150 vagas. O projeto, de acordo com Luiz Paulo, quer fugir do esteriótipo de “teatro de favela” e mostrar um teatro profissional não inferior às grandes companhias. Mas ele diz que não é muito fácil, pois a mídia de uma forma geral não ajuda muito, colocando o “Nós no Morro” apenas como mais uma escolha para os membros do Vidgal fugirem do tráfico e da violência. “Seria fundamental mudar o olhar sobre a favela”, diz.

A segunda rodada de palestras foi concluída com um debate e finalizada às 17 horas. A programação segue com o show de Jazz na Curva da Jurema, às 19 horas.

Barbara SzanieckiIvana BentesLuiz Paulo Correa e Castro

Reportagem: Cezelina Chagas e Ludmylla Altoé
Edição: Carlos Augusto

Abertura “O Comum”

 

A abertura do Seminário “A Constituição do Comum” contou com a presença de representantes das secretarias da cultura, de desenvolvimento das cidades, de comunicação e também da secretaria estadual da cultura. Além da presença do vice-prefeito de Vitória Sebastião Balarini e da deputada federal Irini Lopez.

Na mesa de abertura, destaque para a fala de Irini, que disse ser preciso acelerar o debate sobre o processo democrático no país, e ter um espaço onde conjuntamente a sociedade reflita sobre o que é a construção da democracia nesse período da historia da humanidade; e questiona “onde é que a gente vai encontrar o espaço do comum? Ou onde que a soma das singularidades ou sua atuação nas redes de comunicação do mundo chegam no comum? E é aí que a gente encontra soluções para os problemas que afligem o mundo”,conclui.

Na abertura enfatizou-se a importância das redes digitais no fortalecimento da democracia e a importância da comunicação para a cultura, o desenvolvimento do comum e das multidões pensantes.

Após a abertura teve início a primeira palestra, com o tema: “O papel da Cultura e da Comunicação no capitalismo contemporâneo”, com o professor Giuseppe Cocco, da UFRJ. Ele iniciou dizendo que acredita ser necessário, para um debate sobre cultura, pensar, primeiramente, as transformações do trabalho e sua relação com a sociedade. E dentro dessas transformações está principalmente o fato de a produção não estar mais associada ao trabalhador individual e sua organização dentro da indústria. Vivemos, hoje, numa relação produtiva que passa pelo campo do trabalho imaterial e do capitalismo cognitivo. Resumidamente, segundo Cocco, “a cultura não é apenas um setor emergente, e sim está na base de todos os setores produtivos”. Ele entende o conceito de trabalho como uma relação entre homem e natureza, que se torna dependente da relação entre os sujeitos – relações intersubjetivas, comunicacionais e afetivas – a qual caracteriza o trabalho que não se limita ao chão das fábricas e à relação salarial. E ainda ressalta que a precarização do trabalho e de todo sistema social não é um problema do subdesenvolvimento, ela é um problema da dinâmica do desenvolvimento. E conclui sua fala dizendo que a mobilização produtiva transcende a relação do trabalhador e o trabalho assalariado.

“Nós somos os especialistas”

Na segunda parte da palestra, Maurizio Lazzarato, da Universidade de Paris, disserta, basicamente, sobre as formas de cooperação de saberes e suas implicações na constituição de uma nova democracia. Ele cita o movimento “Intermitentes do Espetáculo”, que se trata de uma organização cultural que critica a especialização científica através de questionamentos sobre a discriminação do senso comum por parte dos especialistas e da clausura em que a maioria dos estudos científicos são realizados. Uma pergunta bastante intrigante é: que tipo de poder os especialistas têm para se envolverem nas tomadas de decisões e embates políticos, que atingem os cidadãos comuns? Os intermitentes colocam em discussão os papéis que cada um tem na sociedade, e consideram válido retirar esse monopólio de decisões das mãos do estado. Uma vez que, o poder de crítica cabe a cada um de nós, e não apenas aos “especialistas”.

“Nós somos os especialistas”, é o slogan do movimento. Essa palavra de ordem questiona o coletivo. Quem poderá fazer parte desse coletivo e quem tem o direito de se expressar politicamente? “Esses trabalhadores da cultura (os intermitentes) são especializados nesta área, mas se consideram como profano alguém que não é legitimado, e que por isso não tem o poder de intervir na área”.

Porém, Lazzarato garante que não se trata de desqualificar os saberes eruditos, mas criticar a clausura desse saber, como ele é produzido e deve ser submetido à revisões e requalificações.

O palestrante conclui dizendo ser necessário repensar esse corte entre saber especializado e saber popular, que são tratados hierarquicamente, o que discrimina o saber do povo.

Em seguida houve um breve debate entre o público do seminário e os palestrantes. As programações continuam a partir das 14 h, com a palestra: “Estética da multidão e redes de produção cultural”.

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