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“É Clara, né?!”

Reportagem e edição: Catarina Carneiro

A frase é de José Roberto dos Santos Neves, jornalista capixaba e referência quando o assunto é crítica musical.
Pois é, estou aqui levantando a primeira pauta a cair: sexta à noite. Como meu blog, Azul e Rosa, fala sobre o Espírito Santo, Luiz Paulo, minha dupla de blog, resolveu cobrir a homenagem feita à Clara Nunes pela cantora capixaba Dennise Pontes. Mas, meu querido amigo chegou virado de Muqui e só queria saber de dormir na sexta à noite. Conclusão: sobrou para mim. Sai da palestra da manhã procurando o ser bondoso que poderia fazer isso por mim, mas já tava todo mundo cansado. Ainda insisti à tarde, mas o zumbi do Luiz Paulo queria dormir. Tive que pegar o segundo 500 lotado do dia. Fiz isso morrendo de medo. O centro de Vitória é perigoso para circular sozinha à noite. Cheguei e fui ler o texto que apresentava a exposição de fotos e que me apresentava à Clara Nunes. A surpresa: assinado por José Roberto dos Santos Neves. Fiquei muito feliz porque significava para mim o reconhecimento por outras pessoas de um grande crítico musical que o Espírito Santo abriga. E o texto era ótimo! Depois de informada pelo texto, minha colega de sala, Gisele, emprestou-me o texto de A Gazeta sobre aquele dia do evento. Estava pronta para procurar a Dennise…

Dennise Pontes

Pergunta norteadora da conversa: Por que Clara Nunes? Dennise disse que foi convidada pelo crítico musical José Roberto dos Santos Neves, estudioso apaixonado pela Clara, com quem também conversei. O escolha se justifica porque o trabalho da cantora capixaba se identifica com o da mineira. Dennise tem infuência dela e as duas têm influência afro-brasileira. A interpréte fala sobre a apresentação:

“O show é uma homenagem à Clara com as músicas que foram imortalizadas por ela mesma. Canto ainda minhas canções que fazem parte deste universo: carnaval, afro-brasileiro. ‘Mundo Gira’ e ‘Bem Brasileira’ são dois exemplos: a brasilidade e a Clara Nunes”

Brasilidade

Essa é a palavra sempre mencionada quando se fala em Clara Nunes. Dennise Pontes citou este como um ponto em comum na sonoridade e personalidade dela e da Clara. O mesmo falou o já citado José Roberto. Sobre Clara, sobre Dennise e sobre sua mistura Clara/ Dennise. Ele comenta:

“A Clara representa o Brasil. Enquanto o rock e a discoteca estavam no auge no país, ela cantava sobre carnaval, as raízes negras, a umbanda e o candomblé. Ela tocava o que tinha no Brasil. Se tivesse conhecido o congo, teria tocado também. Muitos falam que ela é carioca. Outros perguntam se ela é baiana. Mas ela é mineira”

Até intervi nesse momento, Luiz Paulo tinha afirmado para mim: “Ela é capixaba. Saiu de Vila Velha com doze anos!” Então, pude concluir com José Roberto que ela é mesmo brasileira! O jornalista conheceu a cantora quando ela começou a aparecer na televisão em 1966. Ele pode vivenciar toda carreira de Clara.

“Ela foi uma das cantoras brasileiras mais importantes. A primeira mulher a vender 500 mil cópias!”

E conclui:

“Depois da morte de Clara Nunes ficou uma lacuna”

A lacuna, hoje, é preenchida pelas homenagens à artísta. Dennise Pontes faz sua parte. O grupo mineiro “Contos de Areia – um canto à Clara Nunes”, que se apresentou ontem na Estação Porto também. E assim vão criando sinônimos para o sinônimo da brasilidade.

Mais sobre a Clara:

Blog oficial da Clara Nunes

A homenagem, que contou ainda com um debate sobre a musicalidade de Clara Nunes, representou o encerramento bastante cultural do Seminário Internacional “A Constituição do Comum: Cultura e Comunicação na Cidade”, que trouxe à população discussões e propostas sobre a comunicação e a cultura na sociedade atual.

Reportagem: Gisele Pereira e Carlos Augusto
Edição: Monique Mansur e Carlos Augusto

A última rodada de palestras do seminário começou com a editora assistente de internet da Editora Abril, Ana Maria Bambrilla, afirmando que o jornalismo não está com seu futuro comprometido, visto que o campo de atuação de um jornalista é bem amplo. Por exemplo, no jornalismo colaborativo, em que o cidadão participa como agente social da notícia existe a figura do profissional para “regular” as produções enviadas. É o que ocorre no Oh My News, Vc Repórter no Portal Terra, O Estadão e Vc no portal G1, locais que aceitam publicações cidadãs, mas que são revisadas pelos jornalistas antes de serem publicadas.

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Colaborativo X Comercial

Bambrilla acredita que o jornalismo colaborativo não descarta o comercial, como nos casos citados anteriormente, sendo este uma nova forma de percepção, de olhar do fato, uma nova área de discussão onde o cidadão se torna repórter e pesquisador no seu contexto social. Ao contrário dos que muitos pensam, essa forma de informar é muito mais difícil do que parece, uma vez que o cidadão comum não está familiarizado com a linguagem jornalística e muitos ainda não dominam por completo a complexa linguagem da internet, além das faculdades não se atentarem para este novo rumo da comunicação. Mas, mesmo sem dominar essas técnicas, o jornalismo precisa desse cidadão participativo que está presente em todos os lugares e momentos com seus celulares e máquinas digitais em punho para documentar os fatos. E para “instruir” esses cidadãos comuns a criar suas notícias, o blogueiro Roberto Romano disponibilizou na internet, no modelo creative commons, uma coleção inteira de publicações que incentiva os cidadãos a entrarem nesse campo, a Coleção Conquiste a Rede.

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Diploma X Experiência

Roberto Romano, do Zero Blog Network Jornalismo, pôs em discussão que a única diferença entre um internauta que produz sua notícia e um jornalista é apenas o período em que o repórter ficou na faculdade. A grande questão em que está pautada o que é ou não competência do jornalista é o fato de que nos baseamos na antiga concepção de trabalho, onde só seria reconhecido como profissional aquele que dominasse as técnicas jornalísticas. A nova concepção, como bem explicou Mauricio Lazzarato e Giuseppe Coco acerca da cultura no capitalismo contemporâneo, é que a profissionalização deixou de ser material para ser cognitiva. Dessa forma, qualquer um que pensar uma problemática passa a ser produtor de informação, e não apenas um mero receptor. Então, por que não chamá-lo de jornalista? Isso é nítido nos posts dos blogs, onde são publicados textos sem técnicas, mas ainda com o caráter informativo da notícia, influenciando, assim, novos usuários.

O colaborativo na grande mídia

Durante todo o bate-papo, modelo proposto pelos palestrantes no lugar da formalidade de palestra, sugerindo uma “despalestra”, Romano e Brambilla lembraram dos últimos acontecimentos em que as melhores imagens, documentações e matérias foram feitas a partir de celulares e câmeras digitais. Também foram publicados nos blogs pelos repórteres colaborativos e, mais tarde, veiculados pelas grandes mídias. Os exemplos citados por eles foram as imagens do tsunami na Ásia, da execução do Saddan, da ocupação dos estudantes à reitoria da USP, dentre outros.

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Ponto de Cultura

Encerrando os pronunciamentos, Orlando Lopes, do Ponto de Cultura (PdC) Salvamar, lembrou que o interior do Brasil continua sem ser atingido pela grande mídia, sendo necessário que a própria população local seja produtora de informação. Para isso, o PdC disponibiliza meios técnicos e cognitivos para a realização de projetos que coloquem em prática todos os conceitos de jornalismo participativo e cidadão.

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Após as explanações, foi aberto um debate bastante produtivo, plural e comum, em que vários pontos de vista acerca dos assuntos colocado em discussão foram externados, mas que logo teve que ser interrompido, já que os palestrantes tinham que retornar às suas cidades de origem. Portanto, fica agora, o ensejo de continuar essa discussão no seminário que se realizará nas outras capitais do Brasil, Rio de Janeiro, Salvador e Belém, entre os meses de maio e agosto.

Reportagem: Danielle Ewald e Thaís Paoliello
Edição: Monique Mansur e Carlos Augusto

Colaborar é melhor que competir. A ascensão das mídias colaborativas esteve presente nos discursos dos palestrantes Luiz Fernando Barbosa, Marcos Dantas e Sérgio Amadeu nesta sexta-feira.

“Programas públicos de acesso à internet pública: estratégias e parcerias” foi o tema da primeira rodada de palestras neste último dia de seminário. Os assuntos que se destacaram foram: inclusão digital, TV digital, direito a comunicação e o projeto Metrovix.

“O projeto Metrovix consiste numa rede de alta velocidade que vai interligar instituições de ensino e pesquisa promovendo uma maior agilidade no fluxo de dados e partilha de conhecimentos” disse Luiz Fernando Barbosa, secretário de desenvolvimento da cidade de Vitória, ao explicar o projeto.

Democratização da comunicação

Para Luiz Fernando Barbosa, as tecnologias da informação e da comunicação são consideradas atualmente um pressuposto para a participação democrática na sociedade. Em seu discurso Barbosa apontou que 31% das famílias não se beneficiarão com programas de redução de preços dos computadores, o que ressalta a importância de centros de acesso coletivo.

“Pluralidade cultural e democratização da comunicação são algumas das aquisições da TV digital” ressaltou Marcos Dantas, da PUC-Rio. Além disso, com a implantação da TV digital uma das possibilidades será o aumento da interatividade (local e a longa distância), provendo mais programações alternativas dentro de um mesmo canal.

Capacidade Cognitiva

O acesso às mídias deve vir paralelo à capacidade de cognição. Segundo Marcos Dantas não adianta ter acesso às mídias se você não tem o mínimo de educação e cultura para poder operá-las.

Dantas disse ainda que inclusão digital não é aumentar o mercado consumidor e sim investir em tecnologias de inteligência que minimizam as desigualdades cognitivas. E para finalizar ele completou que o negócio é colaborar e não competir com mídias digitais.

Samba na tela e no pé

Reportagem: Paula Varejão, Monique Mansur e Thiago Lourenço
Edição: Regina Trindade e Carlos Augusto

“Muito bacana, muito linda, nem sei o que dizer”. Foram essas as palavras de Edson “Papo Furado”, o homenageado da noite de ontem no documentário Anjo Preto, de Gui Castor.

O lançamento do filme lotou a Estação Porto e arrancou aplausos e risadas durante a sessão. Integrantes da velha guarda estavam presentes e ficaram emocionados ao se verem na telona, onde parte da história e trajetória da Velha Guarda do samba capixaba ali foram eternizadas.

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Gui Castor passou um ano e meio acompanhando o cotidiano de Edson. Festas, rodas de samba, boteco, vida familiar, além de depoimentos de amigos sambistas deixam transparecer a humildade e o amor pelo samba. Papo furado, que adquiriu esse apelido devido as várias histórias que conta a todo momento, torna o documentário divertido devido ao seu bom-humor e simplicidade. E dessa convivência claramente nota-se a amizade que se concretizou entre o cineasta Gui castor e Edson Papo Furado. Ao ser perguntado sobre como foi ter o Gui na sua cola durante todo tempo, Papo Furado não hesita em responder: “O Gui não terminou de encher meu saco ainda, vai ter que encher meu saco até o final, porque ele é um garoto maravilhoso”.

Após o documentário houve a apresentação do grupo de samba Sandálias de Pescador, do qual Edson é padrinho. Para ficar ainda melhor, fomos presenteados com a participação especial do cantor e compositor carioca Monarco, da Velha Guarda da Portela, além do próprio Papo Furado, que emocionado subiu ao palco e cantou algumas músicas. O show empolgou a platéia que, entusiasmada, dançou e cantou com sambas tradicionais como “Ai que saudades da Amélia” e “Com que roupa?”. Palestrantes, professores, organizadores, alunos, integrantes da velha guarda. Todos se juntaram numa grande festa. Monarca diz se sentir bastante à vontade em se apresentar em Vitória. “Vitória pra mim é uma segunda casa, aqui eu tenho grandes amigos, canto como se tivesse cantando no terreiro da Portela.”

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O diretor

O tema do documentário surgiu quando Gui Castor passou a freqüentar os ensaios da escola de samba Unidos da Piedade. “Comecei a conhecer as pessoas do samba, então veio a idéia de valorizar o trabalho de quem faz samba de verdade aqui no estado.”

O sambista Edson Papo Furado foi escolhido como “fio condutor” da história por ser um artista singular e encarar a vida de um jeito bem-humorado. O diretor conta que se surpreendeu com o entrosamento conquistado com Edson, sua família e todo pessoal do samba. “Eu criei uma família também”.

Gui produziu todo o filme sozinho. Foi diretor, câmera, roteirista e idealizador do projeto. Teve ajuda apenas da produtora do lançamento Andréa Braga, que cuidou da administração executiva do filme. “Na realidade o problema do artista capixaba é que ele não pode ser só artista, tem que ser artista, produtor, executor, diretor e ainda tem que entender de dinheiro e administração. O meu trabalho com o Gui é a idéia que ele possa estar solto para trabalhar a criatividade dele.”

Gui Castor tem apenas 20 anos e cursa o sexto período de Comunicação na Ufes.

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O Homenageado

Com sua personalidade simples e humilde, o sambista Edson Papo Furado diz que não vai ficar famoso nunca, já que não tem nada pra isso. “Eu acho que todo mundo que vive nesse ‘mundo cão’ é um artista, é famoso”.

Se perguntar para o Edson quantos anos tem, ele se recusa a dizer e brinca: “Eu sou imorrível!”. E quando sua esposa chega perto, ele faz questão de abraçá-la e dizer: “Essa é a mulher que eu amo”. Seu bom-humor e sua cachacinha nunca o abandonam.

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Ele estava muito satisfeito com a homenagem. Ao final do filme, se emocionou ao dar entrevista. “Cada vez que amanhece o dia a vida me dá coisas melhores”. Se diz sem palavras para descrever o que estava sentindo. Mas faz questão de ressaltar: “Eu vou estar sempre sentado aqui na mesa do meu barzinho, tomando algumas coisas, aproveitando o que tem de melhor”. Gosta sempre de fazer referência à sua velha e boa cachacinha, que, inclusive, foi distribuída pra o público ao final do filme, em cabaças estilizadas que levavam o nome do filme e do diretor, confeccionadas especialmente para o evento.

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O documentário

O nome “Anjo preto” foi escolhido devido a uma história contada por Papo Furado da sua infância que tem a ver com o racismo. Ele se vestiu de anjo para participar de uma procissão. O padre, numa atitude preconceituosa, disse que não existia anjo preto, e impediu Edson de desfilar.

O documentário se passa no Morro da Fonte Grande. Mostra a vida na favela, as festas, os costumes desse povo apaixonado pelo samba, que tem orgulho de morar onde mora. Várias outras figuras importantes, além de Edson, também aparecem cantando e dão sua opinião sobre Papo e sobre o samba. Fica claro a preocupação deles com o futuro da Velha Guarda, se sentem responsáveis em formar os sambistas de amanhã e temem que o samba vire modismo, assim como aconteceu com o pagode.

Papo Furado conta historinhas interessantes que deixam o filme com ar descontraído. Dentre suas citações estão: “Eu só não bebo acetona pra não tirar o esmalte do dente” , “Cachaça é igual mulher, tem umas boas e outras ruins” , “ Se eu for falar de tudo que eu tenho de bom eu esqueço de mim” , “meu pai me ensinou que falar mal dos outros pela frente é falta de educação” , entre outras coisas.

 

O Show

A banda Sandálias de Pescador animou a platéia após o documentário. O padrinho do grupo, Edson Papo Furado, gosta de brincar dizendo que “a banda é horrorosa”, de tão boa que é! Para eles foi uma honra o lançamento de sua banda, além de ter a ilustre presença de Monarco da Portela cantando vários sucessos, ser no dia em que seu padrinho é o principal homenageado da noite, o qual consideram uma referência no estado como sambista. “Não existe ninguém que saiba mais de samba e de carnaval do que o Papo Furado”, diz o vocalista da banda Betinho Capoeira.

Sandálias de Pescador tem apenas 2 meses de existência. Nasceu no Festival “Vitória em Canto” realizado em abril na própria Estação Porto, em que a banda ficou em quarto lugar. Betinho conta que este nome foi escolhido devido a uma gíria carioca, em que “chegar na sandalhinha de pescador” significa “chegar humilde, chegar tranquilo, sem alvoroço”.

Reportagem: Ludmila Pecine e Mônica Oliveira
Edição: Juliana Tinoco, Regina Trindade e Carlos Augusto

“Dinâmicas Metropolitanas e Políticas de Desenvolvimento” foi o tema da tarde no penúltimo dia de seminário. Tornar a cidade espaço de integração, onde a diversidade cultural possa confluir para interesses comuns de seus habitantes, foi colocado pelos palestrantes como o grande desafio a ser superado na era “pós-industrial”.

A mesa foi composta pelo coordenador do Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura (MinC), Célio Turino, pela professora do Departamento de Arquitetura da Ufes, Clara Miranda, pelos sociólogos do CNRS e Institut Français D’Urbanisme, da França, Thierry Baudouin e Michèlle Collin.

Durante a explanação Célio Turino, do MinC, ressaltou que o modelo civilizatório pelo qual o Brasil passou naturalizou formas de preconceitos e atitudes de exclusão. Para ele, a falha na construção de uma escola pública de qualidade foi um dos fatores que desencadeou o processo de cultura da violência vivenciada no país, como por exemplo em cidades como Vitória. Turino considera a escola como um espaço de encontro da diversidade cultural, uma vez que nela pessoas de origens diversas estabelecem contato diário. A formação de espaços como condomínios e shopping centers que contribuem para a concentração de culturas e riquezas, foi outro ponto destacado.

“Temos que buscar construir outro caminho: uma cultura de caráter emancipador e não de preconceitos ou aprisionamentos”, declarou Turino.

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O coordenador do Programa Cultura Viva defendeu ainda o desenvolvimento de Softwares livres como algo simbólico na formação de conceitos colaborativos entre os indivíduos.

A importância das cidades portuárias para a cultura metropolitana foi o foco da palestra do sociólogo Thierry Baudouin. Para ele, a dinâmica da globalização demanda territórios produtivos que acompanhem esse fluxo. Segundo ele, é preciso observar as potencialidades locais considerando a atual configuração social, na qual as relações se dão de forma aleatória e a cooperação surge como fundamental.

“Não existe um método comum a toda cidade para poder se ligar à globalização. É preciso que cada cidade encontre seu próprio método para expressar suas potencialidades no processo de globalização”, afirmou Baudouin.

Nesse contexto, o papel produtivo da democracia surge como condicionante da produção cultural e os múltiplos interesses, na metrópole, convergem para interesses comuns. A visão da metrópole como o comum contextualizado surge por meio do sentimento de pertencimento à cultura nela existente.

A participação dos moradores na elaboração dos projetos arquitetônicos das cidades foi o ponto central da fala da sociológa Michèlle Collin. A idéia do novo urbanismo leva em consideração a mobilização de todos atores da cidade. A forma de atuação das prefeituras, ao inventar equipamentos e desenvolver modelos arquitetônicos sem levar em consideração práticas e costumes da população local, foi um dos exemplos dados.

“Espaço público como o espaço da diversidade: como organizá-lo de forma que também seja um espaço comum?”, questiona Collin acerca de seu objeto de estudos.

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A economia capixaba, fomentada por grandes empresas de mineração, siderurgia e celulose, foi destacada pela professora do Departamento de Arquitetura da Ufes, Clara Miranda, na última palestra dessa tarde. A partir de seus estudos, a professora observa a região metropolitana de Vitória como um território de passagem, com fluxos do comércio internacional, sem perder as particularidades locais.

O “Seminário Internacional Constituição do Comum – Comunicação e Cultura na Cidade” segue com show do Grupo Sandália de Pescador, às 21 horas e lançamento do documentário “Anjo Preto” do estudante Gui Castor, às 20 horas, na Estação Porto.

Reportagem: Juliana Farias e Thaís Paoliello
Edição: Juliana Tinoco, Regina Trindade e Carlos Augusto

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A globalização, a identidade, a marca e o papel da comunicação na nova relação de trabalho e consumo, característicos do capitalismo cognitivo, foram alguns dos temas discutidos nas entrevistas com Yann Moulier e o Antoine Rebiscoul.

No cenário de produção colaborativa socializada e difusa no capitalismo imaterial, as novas relações de trabalho e a importância da atuação dos setores de comunicação passam a ser reavaliadas e questionadas .

Neste contexto, Yann repensa o papel da esquerda na mobilização social:

“As proposições de esquerda foram marginalizadas, após a mudança do capitalismo industrial. Os programas de socialismo são fracos. Hoje, ninguém vai dizer que a solução é nacionalizar a indústria. A esquerda tem que aprender a ter uma proposta a altura do desafio. Além de ter a preocupação em se adaptar a esta relação capitalista atual”.

Outro ponto de debate foi a ruptura de paradigmas impostos pelo capitalismo industrial em que somente os países desenvolvidos teriam por direito o acesso aos artigos de luxo. Yann destaca um exemplo interessante acerca do consumo de celulares. “Após a globalização, os aparelhos que circulam na Europa são os mesmos que chegam nas lojas do Brasil e países sub-desenvolvidos. Antes, estes países estavam fadados a ter celulares com poucos recursos”.

Identidade

Quando o assunto é o conceito de identidade, Yann Moulier aponta o possível mascaramento das pessoas por meio do nacionalismo, ou seja, uma tentativa de preservar a cultura local e combater ao internacionalismo cultural, o que vai de encontro ao intercâmbio proposto pela globalização.

“Com a economia intangível, a identidade se torna algo em construção, aberto a mudanças. Por exemplo, o Ipod é apenas um dispositivo vazio. Quem define o que ele será é o usúario quando insere suas músicas(discoteca) e o personaliza”, disse Antoine Rebiscoul.

O papel da Comunicação

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Antes, o processo de produção era a fabricação de produtos e, depois que estes estivessem prontos, se pensava a estratégia de atuação no mercado. No entanto, Antoine ressalta que atualmente as empresas criam conceitos e os incorporam na forma de produtos. Assim, o departamento de comunicação das companhias, anteriormente secundário, passa a concentrar uma maior responsabilidade. Logo, a grade curricular de comunicação tem que reavaliar a sua forma de ensino. Rebiscoul destaca também a importância de se pensar numa graduação mais integrada, antenada ao contexto de economia, administração e finanças.

Entrevista: Juliana Tinoco e Eduardo Valente
Edição: Juliana Tinoco, Regina Trindade e Carlos Augusto

Acordo sabendo que o dia seria cheio. O telefone toca. Era Eduardo Valente, meu amigo Dudu. “Estou hoje no Porto porque a Rê (Regina Trindade) disse que você está precisando de ajuda nas entrevistas”. E estava mesmo. Na segunda-feira “travei” ao tentar fazer uma entrevista, em francês.
Saí de casa: chuva! Cheguei ao seminário e logo encontrei Dudu, “Vamos conversar lá fora?!”.  No pequeno lugar reservado aos fumantes e embaixo de chuva, encontramos Antoine Resbicoul e Andrea Fumagalli, ainda desconhecido por Dudu em seu primeiro dia. “Bonjour!”.  Assim começou uma conversa descontraída que só terminaria mais tarde. Meu nervosismo não diminuiu, pensei em desistir. “Relaxa”, disse Dudu. Pegamos a pauta, e depois da palestra “Criação de ativos imateriais para o desenvolvimento das cidades” fomos conversar com Antoine, dessa vez com gravador e câmera fotográfica em punhos.

Antoine

– Aos atributos do que julga e de acordo com o exposto na palestra, como aborda o capitalismo nas suas estruturas?
 – No capitalismo, a construção dos capitais gira em torno daquilo que se organiza. A  economia ortodoxa classifica a forte conexão entre bens e valores que como questão é  parte do neo-capitalismo. Então, se as firmas organizadas custeiam as operações, o  capital irá calcular o custo de oportunidade. Ele não é livre, ele é o custo de  oportunidades. Ou seja, nós desenhamos nossas empresas, organizações e corporações, fazemos o “design” delas, porque ela pega só as intenções dos impostos (Risos). Logo, o cliente é o maior tributário de todos, pois parte dele o desejo. Fala-se, ainda, nas grandes corporações que projetam o que é capitalismo cognitivo e tentam socializar um capitalismo econômico. Como as tais corporações são grandes acabam por capturar as intenções de socialização que nós mesmos bancamos o tempo todo. O capitalismo torna-se cognitivo em níveis que rompe a fronteira entre bens e valores.

– O que conceitua como “input” e “outcoming”?
– São definições, termos que são dados das externalidades e internalidades  empresariais. Não se fala de um capitalismo voltado para uma cognição educativa, é um  mercado de trabalho junto com seus valores que caracterizam e determinam o resultado de uma produção, isso é chamado “input”. Dessa forma, o “outcoming” torna-se o ato de resposta em produzir. Assim sendo, torna-se importante a análise do contexto dos serviços e etc.

– De que forma o desejo, que é lançado sobre a sociedade de consumo, estimula a  comercialização e a socialização?
– De forma diversificada as empresas estruturam os anseios da sociedade. O poder das  grandes empresas em se afirmar na sociedade como uma marca forte é o mesmo que atribui a ela a noção de completude. Ou seja, uma marca é tão boa, tão forte e tão poderosa que talvez ela seja mesmo o que mais de completo exista. (Risos.)

– Os publicitários seriam demônios?
– (Risos) Eles são também parte da produção. Esse tipo de economia intangível é ditada  pelo marketing. O marketing operacional e também as mídias alternativas são suportes  econômicos de onde se tem o sustento de um mercado. Os publicitários são só operadores e acreditam nas verdades que eles próprios afirmam.

-Você acredita que as grandes corporações nos gorvenarão um dia?
– Elas, ao menos, já são poderosas.

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